24.07.2026 e 25.09.2026
Peça sonora
Público: M16 | Duração aproximativa: 50 minutos
Perdida no bosque é um desejo. É um gesto. É um esboço de ópera que vai beber nas incontáveis versões do conto popular do Capuchinho Vermelho, reorganizando-as em camadas permeáveis de texto, música, espaço e presença. Mas, para além da história do encontro entre uma menina e uma fera, Perdida no bosque explora a nossa relação com este território onde nascem mitos e símbolos, encantamentos e terrores: a floresta.
A narrativa não segue um trilho linear, mas espraia-se de forma labiríntica e poética por imagens que surgem como que clareiras por entre as árvores: uma menina abandonada pelos pais que cresce sozinha em meio à floresta; um exército de árvores a avançar pela planície com armas em riste; um lobo que desde o nascimento conheceu apenas a fome; três irmãos que jogam cartas à espera daquela que será a sua próxima vítima. Não há uma relação de casualidade entre estes momentos – são como sonhos que se transformam em outros sonhos. E, ao acordar, descobrimos que continuamos afinal a sonhar.
Mais do que tudo, Perdida no Bosque busca reproduzir a sensação de estarmos em meio a uma floresta desconhecida, sem referências que nos guiem, a vaguear por seus cheiros, texturas, cores – sensações. E não queremos encontrar uma saída destas sensações. A floresta como um lugar que procuramos para nos perder.
Conceito e composição: Clélia Colonna | Libreto: Alex Cassal | Apoio à dramaturgia: Costanza Givone | Interpretação: Catarina Miranda, Catarina Sá Ribeiro, Clélia Colonna, Costanza Givone, Isidro Valdés e Mariana Gil | Luz: Rui Azevedo | Som: José Arantes | Produção executiva: Margarida Fragueiro | Produção: O Enxame e o Fuso, Fogo Lento | Residências: CRL-Central Elétrica | Apoiado por a Fundação GDA | Co-produção: Coprodução no âmbito do programa de residências artísticas 2025-2026 do CAMPUS Paulo Cunha e Silva
PERDIDA NO BOSQUE (excerto)
Uma manhã o pai chamou e disse: Pega. Pega neste cesto e vai. Pega nessa bolsa e vai. Pega nesses restos e vai. Sai. Passa por essa porta. Pega neste cesto e deixa este lugar quente e seguro seguro seguro seguro. Segue o caminho. Percorre a orla *verdejante do bosque, mas sem entrar no bosque.
Cuidado. Poderias abandonar-te. Perder-te no que te atrai. Correrias o risco de deixar-te levar pelas texturas, as camadas, as possibilidades do verde verde verde verde. Sim, correrias o risco de perder-te nos jogos de sombra que enganam, nas superfícies que parecem ser algo que não são, nas trilhas curvas, nas reentrâncias desorientadoras, nos recantos arborescentes ameaçadores e atraentes que te chamam a sair do caminho.
Então encontrarias um ser atraente, com algo oculto no olhar, a promessa de um lugar escondido, um segredo ainda por partilhar, um espaço vazio que anseias por preencher. Um ser antigo e novo e quente e verde. Um veado cujos olhos amarelos brilham na noite. Uma velha mulher. Uma família de ratos. Um lobo. Um lince. Uma serpente. Um javali. Um monstro. Um homem. Um círculo de criaturas sombrias a ver-te como aquilo que és:
Uma criança. Uma mãe. Uma presa. Uma puta. Uma rainha de Maio. Um pedaço de carne. Uma cidade a saquear. Uma virgem a deflorar. Uma deusa para adorar. Deita. Deita na erva, no chão coberto de rebentos e fetos húmidos. Este cheiro a coisas novas e frescas. Deita. Dorme. Sonha.
Vais sonhar com o homem de barba cerrada a quem prometeste uma dança. Ele viajou para muito longe daqui, para além do bosque, para além do vale, para além da água. Até o alto dum rochedo onde nasce a flor única e branca. Ele vai trazer-te esta flor, a carregá-la desde muito longe. Ele vai chegar a meio da noite, entrar no teu quarto enquanto dormes, ele vai ver-te abraçada ao rapaz desnudo que trouxeste para a tua cama e teu corpo.
Ele vai cortar a tua cabeça e a do rapaz que trouxeste para a tua cama e teu corpo. E então ele vai deitar ao teu lado. Vai. Sai. Corre.
Perde-te no bosque. Esta é a tua vez. Esta é a primeira vez. Esta é a última vez.
Vai!
